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A curiosidade humana e seu fascínio pelo novo, que muitas vezes não é novo, pelo contrário: é velho! O velho se torna novo quando se trata de algo nunca antes experimentado. Estamos em 2012, numa era em que a tecnologia não para de avançar por um segundo sequer. De que outra forma eu poderia explicar o que senti nas últimas semanas, quando começamos a trabalhar com fotografia analógica na faculdade?
Há três semanas, pegamos filmes P&B e saímos pelo campus armados com analógicas. Eu usei uma Nikon FM2 com objetiva 50mm. A aventura começou aí. O exercício proposto pelo Vitché foi dividir as 36 poses do filme entre os temas retrato, arquitetura e livre. Minha primeira dúvida foi se conseguiríamos alguma imagem boa, já que temos aulas à noite, e mesmo com câmera digital, às vezes temos dificuldade em conseguir captar imagens na baixa luz. Com uma analógica e filme ASA 400, seria infinitamente mais difícil, pensei. I was wrong.
Como disse, saímos com o filme ASA 400, só que puxado pro 800. Desconfiada que sou, levei um tripé, por precaução. O primeiro desafio que a câmera analógica nos propõe é pensar a foto antes de batê-la. Sim, é uma das primeiras orientações que nos passam em qualquer curso de fotografia, mas atire a primeira pedra na 5D Mark III quem nunca saiu disparando com a câmera digital pra só depois ter ideia do que realmente quer ver retratado (eu sei, todo mundo já fez isso, mas ninguém vai atirar pedras na 5D Mark III). Pois então, a câmera analógica nos obriga a pensar e repensar antes de por o dedo no obturador.
Você olha pelo visor (nada de live view aqui! No meu caso, a D40 e a D70 não possuem live view, então não fez diferença) e faz o enquadramento da cena. Você enxerga dois palitos ao lado esquerdo e voilà, aquilo é o que você vai usar pra fotometrar a cena! Palitinhos sobrepostos = luz equilibrada, ok, não é muito diferente das digitais. Só que tem um lance que você pode desequilibrar os palitinhos conforme a cena: observando se a cena tem predominância de áreas claras ou escuras, você mexe o palitinho uns pontinhos pra cima ou pra baixo, tcharammmm, você tem a compensação! O resto é igual às digitais: profundidade de campo pelo diafragma, movimentos congelados ou borrados pelo obturador, essas coisas.
Nem preciso comentar como foi difícil terminar um filme de 36 poses em 3 horas e meia de aula. Nesse mesmo tempo e no mesmo ambiente, costumo bater no mínimo 100 fotos com a digital, entre as quais, se muito, uma dúzia se salva). Pois bem, foi difícil, mas consegui fechar o filme. Difícil foi segurar a ansiedade até a semana seguinte, quando fomos ao laboratório revelar o negativo.
Uma semana depois, estávamos no laboratório, devidamente fantasiados de açougueiros, com nossos aventais brancos que cobriam até os tornozelos (para alguns, mais do que os tornozelos – RISOS) e nossas luvas amarelas de borracha. São regras primordiais para uso do laboratório.
Nessa aula, dada pelo Vitché, tivemos o auxílio da Saissu, que manja tudo de lab. Ela nos ensinou a enrolar o negativo na espiral sem sobrepor nenhum pedaço, pois se isso acontecesse, bye bye fotos: os químicos não teriam por onde circular, o pedaço grudado ficaria com uma mancha, e aquele momento que você demorou tanto pra pensar e clicar ficaria perdido pra sempre, restando apenas na sua memória… mas quem confia na própria memória?
Treinamos por uns minutos a enrolar o negativo na espiral, ainda no lab iluminado, utilizando negativo teste. Felizes e descontraídos, não sabíamos o que estava por vir. Com as luzes apagadas, você perde a noção do que é espiral, negativo… você vai enrolando na escuridão e sente o filme travar, volta, enrola de novo. Parece que está torto, você passa o dedo e tem rebarbas saindo da espiral, respira fundo, desenrola de novo, se sente a mais lerda da face da Terra, acha que todos estão com seus filmes prontos e enrolados nas latinhas e você lá toda enrolada no filme. Enrolei tudo de novo sem sentir firmeza. Já tinha desistido quando o Pepe veio me socorrer. Meu negativo estava todo torto, se não fosse o Pepe corrigir, teria perdido ele praticamente inteiro.
Ainda no escuro, colocamos os negativos devidamente enrolados nas latinhas e esperamos até que todos tivessem terminado. Qualquer frestinha de luz nesse momento destruiria todo nosso trabalho. Luzes acesas, pupilas se contraindo e a gente fazendo caretas. A parte seguinte era a mais demorada, passar o negativo por todos os químicos e fazer a lavagem. Pepe foi minha dupla, nossos filmes estavam na mesma latinha. Ele fez o trabalho braçal de ficar agitando o recipiente enquanto eu tranquilamente cronometrava. Depois do último químico, Pepe abriu a latinha e de lá saíram nossos negativos revelados… indescritível a sensação. Coloquei contra a luz e fiquei lá admirando aquele pequeno milagre. Muitas das minhas fotos ficaram superexpostas, mas ainda assim dava pra ver nitidamente as cenas que eu havia retratado. Dali era esperar mais uma semaninha pra finalmente ampliar as imagens. Haja coração…
Na semana passada, voltamos ao lab. Desta vez, sem o Vitché, que se mandou pra França pra tomar vinho e passear entre apple fields forever. Grande Vitché! Na realidade ele foi fazer uma cicloviagem fotográfica pelo Vale do Loire, um lugar que estamos conhecendo através das fotos que ele tem postado no Facebook, e me parece um lugar encantador, típico de contos de fadas.
Quem nos tutelou no lab foi a Saissu, com sua sabedoria e paciência oriental. Ela nos explicou como funciona o ampliador, as partes componentes e para que servem, como ligar e focar, usar o timer. Fizemos um teste em conjunto com uma foto que eu bati. Dizem que a primeira vez que você vê uma imagem surgindo no papel mergulhado no químico você nunca esquece. Pois bem, vou me lembrar para sempre do sorrisão do Vini surgindo naquela folha de papel. Vini à deriva, indo pra lá e pra cá, suavemente na bandeja.
Depois deste teste, fomos fazer nossas próprias ampliações. Não é fácil, era meu primeiro contato com laboratório, as informações ainda não tinham sido completamente absorvidas, aquela luz vermelha irritante… mas perguntando aqui e ali, fui fazendo. A Tati me ajudou a montar a lente no ampliador e a ligar o timer. Coloquei o negativo e projetei na mesa. Focar aquilo na luz vermelha é pros fortes. Tem uma lupinha que deveria ajudar, mas no meu caso não serviu pra nada… e olha que eu tentei! Bem ou mal, consegui me virar com o foco confiando no meu olho. Coloquei o papel sob o vidro de contato, programei o tempo, respirei e apertei o botão. Corre pra bancada dos químicos, joga o papel na bandeja do revelador e olha, temos uma imagem!!! Mas peraí… tá ficando escura… escura… escura… hey, alguém manda essa imagem parar de escurecer?
Frustradérrima com minha bela imagem de um buraco negro, voltei pro ampliador. Enquanto isso, o Gui berrava da bancada de químicos, me acusando de abandonar minha filha lá boiando no revelador… mas eu não tinha abandonado, estava só deixando dar o tempo (claro que eu esqueci depois). De volta ao ampliador, pensando no que poderia ter dado errado, mexi na abertura da lente, ajustei aqui e ali… pronto, põe papel de novo, aperta botão e corre pra bancada. Coloca a folha no revelador e a imagem aparece, vai ficando escura, escura, escura… caraco, deu errado de novo. Um pouco menos errado, mas ainda errado. Mais uma vez de volta ao ampliador. Desta vez diminuí o tempo no timer. Mudei a foto também. Papel sob o vidro, foco definido, abertura calculada, aperta botão, corre pra bancada… papel no revelador, a imagem foi aparecendo, escurecendo… parou! Parece um pouco clara demais, mas não ficou o negrume das anteriores. Satisfeita, coloquei as fotos no secador e fui embora feliz.
Ontem voltei ao lab pra pegar as fotos. Lindas! Não pela qualidade, que aliás, está sofrível, mas por serem as minhas primeiras. Essa foto em especial. Vini e Su, fiquem avisados que meus netos conhecerão vocês através dessa foto.
Meus sinceros agradecimentos a todos os envolvidos. Vitché, por ter nos dado essa oportunidade tão cedo (ainda estamos no primeiro semestre e já vimos tanta coisa!). Só suas aulas salvam a noite de sexta-feira na faculdade! Saissu, pela incrível paciência que tem conosco, sempre! Pepe, meu mentor, não teria conseguido se não fosse sua ajuda na revelação do negativo! E todos os colegas pelas dicas e compartilhamento de informações, risadas e apoio moral.














