BEFORE I DIE

Depois de almoçar um árabe no Shopping Vila Olímpia, fui andando em direção à estação de trem. Quando atravessava a rua para entrar, olhei à esquerda para ver se não vinha carro, e o que vi me paralisou no meio da via. Não podia ser verdade. Havia quatro bicicletas na estação de bike do Itaú. QUATRO !!! Ultimamente não tenho conseguido pedalar nas itabikes, todas as estações pelas quais passo estão sempre vazias, inoperantes ou com bikes depredadas ou quebradas. Mas hoje era meu dia de sorte, tinha quatro bikes, daria até para escolher. Tava um dia nublado, frio e meio garoento de bosta, eu estava de calça jeans, blusão e lenço no pescoço. Olhei o relógio, ainda era cedo. Com a sorte não se brinca: peguei a melhor bike e fui pedalar sentido Villa Lobos (e eu tinha acabado de voltar de lá).

Hoje era dia de ciclofaixa. Fui por ela até o Parque do Povo. Não costumo entrar, mas hoje entrei. Estava vazio. Domingo de tempo feio, parques vazios, shoppings cheios. Fazia tempo que não dava uma volta inteira lá dentro, e já que estava vazio, resolvi circular.

E então, quando passava pelo trecho mais rápido, ao final de uma descida, vi uma frase  numa parede. BEFORE I DIE. Entendi direito? Curiosa que sou, voltei pra ver o que era.

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Transformaram uma parede em quadro negro, pintaram no topo essa frase e algumas linhas onde as pessoas podiam escrever o que gostariam de fazer antes de morrer com giz. Fiquei um tempo olhando para todos aqueles desejos. Muitos deles eram coisas simples que eu também desejo e provavelmente, você também. Comecei a pensar aleatoriamente em coisas que gostaria de fazer antes de bater as botas, e não parava de vir ideia. Para tanto desejo meu, aquela parede parecia pequena.

Daí veio um lampejo, tipo uma epifania: não seria esse o tal sentido da vida?

Nós chegamos ao mundo e o relógio já começa a contar pra trás. A cada dia de vida nos aproximamos um dia da morte. Se tivermos saúde, temos aí uns 80, 90, 100 anos pra viver. Como vamos preencher esse tempo? Fazendo coisas. Coisas que gostamos e outras que não gostamos tanto assim, e às vezes até coisas que detestamos. Mas o fluxo natural das coisas deveria ser fazer aquilo que desejamos fazer. Aí é onde entra o tal sentido da vida: saber o que gosta, o que deseja fazer (antes de morrer) e ir atrás disso. Às vezes não vai dar, vai ter coisa impossível (quando não depende apenas da sua vontade), mas o grande lance é ter sempre algum sonho pra correr atrás.

Tempo (falta de) não é desculpa, a prova tá no parágrafo anterior. Dinheiro (falta de) às vezes é, porque há desejos que envolvem uma grana, mas daí é trabalhar pra conseguir essa grana. O que você quer fazer antes de morrer? Alcançar cargo X no trabalho? Amar? Ser amado (isso o dinheiro não compra. Quer dizer, às vezes até compra ehehe)? Ter um filho (aqui, por exemplo, demanda uma grana $$$$$)? Um cachorro chihuahua? Subir o Kilimanjaro? Uma selfie com a Xuxa? Dia de princesa com o Netinho? Trabalho voluntário na Índia? Que seja, podemos desejar fazer qualquer coisa antes de morrer. E enquanto existirem coisas na sua listinha, tá valendo cada diazinho de cão vivido.

Eu andei tristonha nos últimos meses, achando que minha vida não tinha sentido. Quando imaginei aquela parede cheia de coisas que eu quero fazer antes de morrer, percebi que a minha vida tem, sim senhor, muito sentido. Sempre terá, desde que eu tenha coisas para fazer antes de morrer, e vá atrás de concretizá-las.

 

 

 

me, myself and i

– Vamos sair.

– Que? Nem fudendo.

– Vamos! Vai ficar dormindo a tarde inteira que nem ontem?

– Você pegou pesado ontem. Me disse coisas horríveis.

– É, eu sei.

– Me fez chorar.

– Sim, eu fiz. Às vezes a gente tem que falar a real, mesmo que machuque. E você tem que ouvir e digerir, ver o que pode tirar de bom e o que pode descartar.

– E agora vem como se não tivesse acontecido nada e me chama pra sair?

– Aham. Bora. Olha, tem umas mensagens no seu Whatsapp, quer que eu leia?

– Não! Silenciei o Whats hoje, não quero falar com ninguém, quero ficar sozinha.

– Mas comigo você está falando! Ótimo. Vai, a feira já está feita, o velhinho já almocou, a louça está lavada e a roupa também. Não tem nada que te prenda aqui.

– Mas tem o TCC…

– Foda-se o TCC, duvido que desse jeito você vá produzir alguma coisa.

– Caraio. Espera eu tomar banho.

Pegamos o trem sem decidir aonde ir. Sugeri que pegássemos uma bike do Itaú em alguma estação e fôssemos pedalar. Eu queria ir ao minhocão ver os jardins verticais que vi no jornal pela manhã.

– Mas antes, eu quero tomar sorvete.

– Sorvete?!

– Aham. Frida & Mina. A gente desce em Pinheiros e vai de bike.

– Deixa ver se tem estação perto. Hummm… não tem nenhuma bike. Má ideia.

– Beleza, vamos de metrô.

– Jamais. Você sabe que odeio metrô. Vamos andando.

– Boa! Adoro quando vamos caminhar.

Quando saímos de Infernagos estava nublado, mas em Pinheiros o sol ainda brilhava forte. Foi uma caminhada gostosa até a esquina da Joaquim Antunes com a Artur de Azevedo.

– Qual você vai escolher?

– Morango balsâmico, o de sempre, ué.

– Affff, de novo? Por que você não experimenta o de gengibre com mel?

– Será? Que bizarro…

[Para o atendente] – Posso experimentar o de gengibre?  (…)  Hummm… quero esse mesmo!

– Eu disse que ia gostar.

– Parabéns.

– De nada.

Saímos tomando sorvete e paramos na esquina para procurar a estação de bike do Itaú mais próxima. A maioria estava sem bicicletas. A melhor opção parecia uma perto da praça Benedito Calixto. Andamos até lá, e a única bike disponível estava depredada, com o guidão quebrado. Vândalos filhas da puta.

– Caraio. Mais fácil ir andando até o minhocão do que achar uma bike pra emprestar.

– Vamos pra Doutor Arnaldo pegar um bus.

– Não temos escolha…

– E se a gente for à Caixa Cultural ver aquela exposição que você tava afins?

– A Valise Mexicana, do Capa? Não seria má ideia! Mas e os jardins verticais?

– Ficam pra outro dia. Tá começando a mudar o tempo.

Pegamos o Praça Ramos na Doutor Arnaldo e descemos no Shopping Light. Atravessamos o Viaduto do Anhangabaú e fomos em direção à Praça da Sé pela Rua Direita.

– Tá meio deserta a rua…

– Tá com medo? Desde quando ficou tão cagona? Tá claro ainda!

– Sei lá, depois do assalto…

– O que o ladrão fez no assalto?

– Me apontou uma arma na cara e mandou entregar o celular.

– E o que você fez?

– Entreguei o celular.

– Pronto. Se aparecer alguém, você entrega o celular.

– Aham. Obrigada, isso muito me acalma.

Pelo menos esse argumento sem cabimento me distraiu e logo estávamos  na entrada da Caixa Cultural. A exposição está realmente fantástica. Dois andares, muitas fotos e contatos, muito texto e uma riqueza de história pra ler, a Camila tinha razão quando disse que essa expo precisa ser vista com calma e em mais de uma visita. Não ficamos nem uma hora, pois já estava acabando o horário de visitação. Saímos em direção ao metrô Sé. Dessa vez eu me rendi e concordei em ir até a Vila Mariana pelo subterrâneo. Um morador de rua batia freneticamente uma panela, passando na frente de vários grupinhos, que o ignoravam sumariamente. Entramos no metrô descendo pela escada normal.

– Ó, obrigada por ter me tirado de casa. Você tinha razão.

– De nada. Eu te conheço, você sabe.

– Ninguém me conhece melhor que você. Amo você, apesar de tudo.

– Eu nos amo, apesar de você insistir em querer estragar tudo às vezes.

***

Da série “às vezes eu converso comigo mesma e me levo para passear”, 11 de setembro de 2016.

#banheirosespetaculares

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Sem nenhuma cerimônia e com muita desenvoltura, ela entrou naquele espaço luxuoso na rua Oscar Freire. Vestia roupas humildes, chinelos e um turbante na cabeça que dava um ar elegante. A brincadeira era tirar uma foto do espaço e postar numa rede social com a hashtag #banheirosespetaculares em troca de um brinde. “Moça, você pode por favor tirar uma foto minha?” – perguntou-me. “Claro que sim”, respondi, enquanto a hostess tentava convence-la de que ela podia levar o brinde sem tirar a foto. “Não, eu faço questão de tirar a foto. Moça, por favor. Ah, só deixa eu me arrumar”.  Colocou as sacolas com seus pertences num canto e começou a desenrolar o turbante, enrolando novamente em seguida, olhando concentrada seu reflexo no espelho. Não esperei que se arrumasse: cliquei. Cliquei outra vez. Outra vez. Por fim, baixou a jaqueta deixando os ombros à mostra, virou-se e  olhou para mim com semblante sério. “Pronto”. Cliquei. “Me manda essas fotos por e-mail, por favor? Pode anotar? cassia.haagensen@…”. Soletrou Haagensen perfeitamente. Me agradeceu, pegou seu brinde e suas sacolas e saiu. Não saiu da minha cabeça a imagem daquela mulher de aparência extremamente humilde, mas muito articulada e de sobrenome estrangeiro. Pois bem, aqui está a foto dela, devidamente hashtageada.

“… você vai ter muita alegria na sua vida…”

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♫ Trilha sonora: Stubborn Love – The Lumineers ♪

“So keep your head up, keep your love”

Era por volta das oito e meia da noite, desci do trem na minha estação, voltando de um cansativo dia de trabalho. Tinha passado o dia todo fotografando. Sentindo o peso do equipamento nas costas e o mundo apertando meus pés contra o chão, caminhava o mais rápido que podia até o ponto.

“- Moça! Moça!”

Ouvi distraidamente o chamado, e quando pensei que poderia ser comigo e me virei, ela já estava ao meu lado, na faixa de pedestres.

“- Você ainda vai ter muita alegria na sua vida, viu, moça?”

“- Oi? Não entendi…”

“- Eu vejo que você vai ter muita felicidade na sua vida.” – falou mais baixo e se aproximando de mim como se me contasse um segredo.

Quem era aquela mulher e o que estava dizendo? Antes que pudesse esboçar reação, como que para escapar de qualquer questionamento, a mulher retomou a fala:

“- Como que eu faço para chegar em Interlagos?”

“- A estação de trem? Estamos ao lado dela.”

“- Não, o shopping.”

“- Ah, para o shopping a senhora precisa pegar um ônibus do outro lado da rua.”

“- Daquele lado, né? Obrigada, moça.”

Atravessou a rua e passou direto pelo ponto, continuando a andar. Meu ônibus, que em geral demora para passar, veio em seguida. Pela janela, procurei a mulher mais adiante na rua, em vão. Ela havia desaparecido tão repentinamente quanto surgiu.

O fato se torna ainda mais estranho quando se leva em conta que há aproximadamente duas semanas tive o que creio ter sido a mais profunda crise de depressão que vivi até hoje, contra a qual tenho lutado diariamente para me libertar.

Compreendi e chorei.

E dessa vez, não foi um sonho.

Into the Wild

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♫ Soundtrack ♪

Um tempo atrás, descobri em casa um antigo álbum de fotografias da minha mãe (falecida há dois anos). A foto acima, de 1965, retrata minha mãe (à esquerda, segurando um rádio) e amigos no topo do Agulhas Negras, 5º pico mais alto do Brasil (2.791m).

Lembro dela dizendo, orgulhosa: “eu escarei [sic] Agulhas Negras”.

Exatos 50 anos depois, sob a graça de um encadeamento perfeito de fatores (meu irmão André ir trabalhar em Guaratinguetá > o André conhecer o Mestre Gerson > o André subir o Pico dos Marins com Gerson > a subida do André ter encantado a querida Juliane > a Juliane ter ouvido emocionada a história da minha mãe ter “escarado” Agulhas Negras quando jovem > a Juliane ter proposto uma expedição ao Agulhas ao Gerson > o Gerson ter topado), eu pude vivenciar a mesma experiência de minha mãe.

E de repente, tudo fez sentido. Agora compreendo a grandeza do “escarar” Agulhas.

Não é fácil. Não se trata apenas de esforço físico, a subida é uma luta mental contra seus medos. Não é simplesmente medo de altura. É medo de não conseguir comungar com a natureza, de não saber utiliza-la a seu favor.

Porque a natureza… a montanha, parece que foi desenhada por Deus com detalhes e sulcos e ranhuras, pistas que foram deixadas apenas para te ajudar a chegar lá em cima. Para que possa chegar ao topo e vislumbrar todo o conjunto da grandiosa obra.

Tendo isso em mente, você só precisa confiar. Confiar no seu guia (o meu era “só um ninja com mais de 20 anos de experiência); confiar na sua bota (isso te faz caminhar em pé, e não rastejar); confiar em você (essa é a parte mais difícil).

Em dado momento, você entra em comunhão com a natureza, e nesse momento o medo se perde. A montanha é você e você é a montanha. Você então percebe que é tão forte quanto a montanha.

Não tenho palavras para agradecer todos os que fizeram isso acontecer: André (pela motivação e inspiração, sempre); Juliane (por ter dado forma a algo que era apenas um rascunho na minha cabeça); Mestre Gerson (pela paciência e atenção com as quais guiou e cuidou do grupo); Mary (que a cada momento de fraqueza meu, me dava forças dizendo “Lux, você consegue, pensa na sua mãe”); Sandro, Andreia e Andreia  (três pessoas super alto astral que conheci na expedição e tenho certeza de que voltarei a encontrar em outras aventuras).

* A música escolhida como trilha sonora desta postagem era uma das favoritas da minha mãe. Meus olhos se encheram de lágrimas e me arrepiei quando a Juliane de repente colocou ela para tocar no celular no momento em que chegamos ao final da nossa trilha. Eu tive a certeza: minha mãe nos acompanhou o caminho todo.

** Quem quiser conhecer o maravilhoso trabalho do Gerson, e arriscar uma aventura na natureza selvagem, segue: Gerson Santos Expedições

Dreams – 03/01/2015

Levantei no meio da noite e fui até o banheiro em frente ao meu quarto. Fechei a porta. Ao me virar, o chão estava alagado. Algum cano havia estourado. A água subia rapidamente e já estava na altura dos meus joelhos quando saí gritando “mãe! a casa tá alagando!”

A água não parava de subir, e a casa inteira estava inundada. Vi minha mãe no corredor enquanto nadava desesperadamente para encontrar uma saída. Ela estava serena. “Mãe, precisamos sair, a casa está alagada!”

Todas as janelas e portas estavam trancadas com cadeado. Eu não possuía nenhuma chave.

A água já passava dos meus ombros, cheguei à última porta: trancada a cadeado. “Mãe, porque você não consertou o vazamento?”

Senti a água descer pelas minhas narinas até os pulmões.

Acordei.

Djapa quenia djá eras

Sabem aquela Lux que treinou meses pra correr uma meia maratona em novembro, e que a terminou com glória, em 1h50min? Que fazia 10km em 50min e 5km em 24min? Então, ela não existe mais.

Depois da meia em 2/11, declarei férias de corrida. Continuei indo à cadimia, mas foram poucas as vezes que treinei esteira. Abri espaço pro spinning e musculação. Foram quase dois meses.

Dae hoje fui fazer um treino de corrida no asfalto: FIASCO! Corri apenas 8km num pace muito aquém do meu usual e quase tendo um colapso!

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Pois é. Mais uma vez, começou a latejar na mente o mantra do sensei André Mendonça: “precisamos treinar sério, Neusa”. Em dois meses meu cardiorespiratório foi pra cucuia, o que comprometeu todo o conjunto. Senti também as pernas duras e pesadas.

O lado triste dessa coisa de ser esportista é que algumas míseras semanas de relaxo colocam a perder todo o trabalho de meses. O lado bom é saber exatamente o que fazer pra voltar ao que era (e ir além): treinar. Mas tem que treinar sério, como disse o Sensei.

E tem que ser um treino focado num objetivo. Não adianta querer correr bem e fazer bike pra manter o corpo ativo, não vai rolar. Quem quer correr bem tem que treinar a correr.

De qualquer forma, meu corpo estava mesmo precisando de férias. Ainda mais que o desafio do ano que vem é a maratona do Rio de Janeiro e, pelo que adiantou o Sensei, o treino não vai ser moleza não! Eu achando que seria um intensivo de 4 meses, será de 6 meses!

Aquela Lux que conseguiu alcançar o objetivo de 2014 não existe mais… mas não faz mal, a Lux em busca do desafio de 2015 vai entrar em fase de construção em breve.