Perdido e achado!

Eu tinha certeza de que estaria exausta depois de caminhar 3 dias na travessia Petrópolis x Teresópolis, então me dei um mimo, e em vez de voltar pra Sampa de bus ou de carona com os amigos (o que levaria várias horas), resgatei uma passagem de avião com as milhas do cartão de crédito. Assim, de Teresópolis iria ao Rio de Janeiro, numa viagem de uma hora e meia de bus, depois mais 40 minutos de vôo até Congonhas e mais um tanto até minha casa de Uber.


Último até logo para a maravilhosa Serra dos Órgãos, da janela do bus

Correu tudo melhor do que o planejado: terminamos a travessia dentro do esperado, consegui embarcar pro Rio rapidamente, da rodoviária Novo Rio peguei o VLT (transporte mais louco em que já andei) e logo estava no aeroporto Santos Dumont.


Grafitti próximo à zona portuária, da janela do VLT

Eram 15:10, apresentei-me ao balcão de check in e entreguei o voucher. "Há um vôo idêntico que sai às 15:55, interessaria?" Claro! O vôo original seria às 17:30, esse seria um belo adianto na vida. Troquei o vôo, despachei a mochila e fui pro embarque apenas com a bolsa pequena com câmera e carteira, o ticket e uma blusa, pois apesar do calor que estava fazendo no Rio, eu costumo sentir frio em vôos. No raio x, depositei meus pertences numa bandeja e passei pelo detector de metal. Tudo certo, saiu a bandeja, coloquei rapidamente o relógio no pulso, peguei minhas coisas e fui ao portão indicado no painel. O embarque começou logo, acomodei-me ao assento 7K, janelinha. Poucas coisas são mais lindas que o Rio de Janeiro visto de cima num dia ensolarado como aquela segunda-feira. A porta fechou, as orientações de praxe começaram a ser dadas, estava ouvindo minhas musiquinhas no fone de ouvido, quando fui tomada por um susto: PUTAQUELPARIL CADÊ MINHA BLUSA??? Refiz mentalmente todo meu caminho, desde o momento em que a tirei da mochila (será que tinha mesmo tirado? Sim, tinha), e concluí que a blusa não saiu da máquina de raio x, pois era daquelas levinhas, de pluma de ganso. Na pressa de colocar o relógio, acabei esquecendo ela pra trás. Que bosta mano, era novinha a blusa. E ela tinha ficado tão bem, e tinha esquentado legal na trip. Respirei fundo – paciência.


Preparando pra decolar. Tinha dado tudo tão certo até ali! Que droga perder a blusa…

Chegado em CGH, tive a ideia de ir até o achados e perdidos perguntar como proceder. O atendente foi super solícito e ligou dali mesmo pro achados e perdidos de SDU. Como não fazia nem uma hora do ocorrido, ainda não havia chegado nenhuma blusa lá. Orientaram-me ligar mais tarde. Lá pelas 21:00 tentei novamente, não havia nenhuma blusa lá. "Blusa… seria tipo uma camisa?" Não, não era camisa, era blusa! Como é que cariocas se referem a blusa? "É mais pra jaqueta, moço". Não, nenhuma blusa, nem jaqueta. E o cara precisava da palavra exata usada por quem porventura tivesse registrado o objeto, pra fazer a busca. Já sem esperanças, agradeci. Fui orientada a tentar novamente no dia seguinte.

Foi quando tive uma ideia brilhante: fui a um grupo de Whats, de uma galera que conheci na trip de carnaval na Serra da Bocaina. No grupo temos 3 cariocas manêros, além de um pessoal de Sampa cheio de criatividade. No grupo, lancei a seguinte pergunta, junto da foto abaixo: "Gente, como é que carioca chama isso?"


Foto de uma blusa igual à perdida.

Prontamente recebi uma enxurrada de sinônimos (e algumas palavras similares): japona, jaqueta, casaco, blusa de frio, casaco de pluma de ganso, anorak… já estava anotando tudo pra passar pro cara do achados e perdidos numa última tentativa de reaver minha blusa, apesar de a esperança já ter ido à cucuia.

Eis que surge Thiago. Thiago é um dos cariocas do grupo, e descobri somente agora que trabalha como agente de viagens. Thiago me fez algumas perguntas sobre a blusa (casaco, jaqueta, whathever), ao que respondi com detalhes: blusa tipo pluma de ganso, azul marinho, tamanho p, com um pacote de lenços de papel no bolso direito. Sumiu por poucos minutos do Whats. Voltou "Qual a marca?" Khelf. "Tem capuz?" Tem! "Encontrado. Objeto 2959. Vou buscar na hora do meu almoço".


Uma hora depois, recebo essa foto com a legenda "muito frio no Rio"

Na semana que vem a blusa volta pra Sampa nas mãos da querida Yanne (a dona do Thiago), portanto não passarei frio na viagem ao Peru. Graças aos cariocas com mais ginga que conheço! Falei que faria um textão de agradecimento. "Fala que cariocas são melhores que cachorro quente com pure". São mesmo! Depois dessa, eu até admito que é biscoito e não bolacha! Valeu, Thiagão, você é ninja demais!

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The Sakurai Chronicles, chapter 2: The guitar man

A fim de aliviar um pouco a dor de garganta que já durava uma semana, preparei um chá de gengibre com limão e mel. Estava uma noite fria, fiz uma xícara pro meu pai também. Levei até a sala, onde ele assistia a um programa musical na NHK, canal japonês.
“Olha!” – disse ele, apontando para a TV. Um senhor de idade conversando com os apresentadores do programa. Vestia um terno cinza e em seu colo estava uma guitarra vermelha.

“Quem é esse cara?” – perguntei. “Não sabe? Kayama Yuzo.” Continuei com minha cara de origami. Nunca tinha ouvido falar no cara. “Tá, mas e daí, o que tem ele?” – continuei, pra ver se ele dava alguma dica de onde queria chegar. Meu pai fala por enigmas de vez em quando.

O senhor por fim levantou-se e começou a tocar e cantar uma música. “Olha, olha!”. Continuei sem entender, não fazia ideia de quem era aquele cara. Olhei pro meu pai pedindo uma luz e ele olhava pra mim com cara de quem esperava uma reação minha. “Não entendi. Que tem esse homem?” – tentei mais uma vez. “Kayama Yuzo. Fez 80 anos.” – falou empolgado, apontando o senhor cantante na tela da TV. “Nossa, 80 anos…” – tentei fazer um comentário mais inteligente, mas não saiu nada além dessa falsa surpresa, ainda sem entender porque ele estava me falando isso de forma tão entusiasmada. 

“Kayama Yuzo fez 80 anos. Eu tenho 81 e pareço mais jovem que ele.” – disse, sorrindo satisfeito enquanto apontava para a tela e depois para o próprio nariz. 

Foi quando descobri que meu pai com 81 anos tem a auto estima mais bem esclarecida que a minha

THE SAKURAI CHRONICLES – Chapter 1: Pops

Anualmente meu pai vai ao Consulado Japonês preencher um formulário que é posteriormente enviado para o Japão, tipo a prova de vida que os idosos aposentados precisam prestar todo ano. 
Ontem ele me trouxe um formulário preenchido e pediu para tirar algumas cópias. Uma etiqueta anexada dizia para fazer umas cinco cópias. 
“Não tem pressa” – ele disse. “Esse ano eu já mandei, essas cópias são para enviar uma a cada ano… está escrito pra tirar cinco cópias, mas não precisa de tudo isso… é um documento que prova que estou vivo, agora estou com 81 anos, acho que não vivo até os 86.”
Aquilo me soou como uma porrada. “Como assim, pai?! Vai viver sim! Deixa de falar besteira!” 
Peguei o formulário e fiquei pensando nisso. 
Hoje devolvi o formulário para ele, junto com as cópias. Fiz 20 cópias. 
“Pai, sabe o formulário que você pediu pra eu tirar cópia? Então, aqui estão, 20 cópias. Então faça o favor de viver forte por mais 20 anos, entendeu? Não quero ouvir você dizer novamente que não vai viver muito.”
Acho que ele não esperava por essa. Percebi que ele quase chorou quando disse “mas se eu viver por mais vinte anos, imagina o trabalho que vou dar a você!” – aí quem quase chorou fui eu. “Não pai, não é e não vai ser trabalho algum. Só fica forte e vivo comigo por mais vinte anos, tá bom?”
“Tá bom, tá bom” – ele disse, vencido. Dei um abraço e um beijo na testa daquele velho bobo.

EU PRECISO FALAR SOBRE ESTE VIDEO

Dia desses, estava deslizando minha timeline do facebook, quando um link me chamou a atenção com a seguinte frase-título: “Filhos surdos acham que mãe tem super poderes, e então ela percebe que eles não ouviam a campainha”. A frase me pareceu muito familiar. Cliquei para ler. O video de quase 7 minutos conta a história de seis irmãos,  dentre os quais três são surdos, suas peripécias na infância e a forma como eles encaram a surdez agora adultos.

Como tenho quase 850 contatos no facebook, creio que a maioria não saiba, então vale informar aqui que eu tenho perda auditiva neurossensorial moderada no ouvido esquerdo e profunda no direito, muito provavelmente de nascença. Com um pouco de convivência comigo isso é facilmente notável, apesar de uma fonoaudióloga ter dito certa vez que “eu disfarço bem”.

Os rapazes do video possuem uma perda auditiva mais grave, tendo inclusive recebido implante coclear. Eles contam algumas histórias, e mesmo eu tendo um grau menor de deficiência, me identifiquei demais com algumas delas. Numa delas – a história do título da matéria -, eles contam (tradução livre minha):

Quando eu era pequeno, mamãe e papai podiam simplesmente abrir a porta e alguém estava lá. Era como mágica. Nós tentávamos com toda nossa força fazer igual, mas quando abríamos a porta, não havia ninguém. Então mamãe dava uma voltinha, abria a porta e alguém estava lá. Então nós perguntamos à mamãe “como você faz isso?” Ela disse “estão vendo este botão na porta? Ele faz um som.” “Ohhhh som!” Nós não sabíamos que a campainha emitia som. Achávamos que era apenas um botão engraçado.

Uma de minhas lembranças mais antigas sobre começar a ter consciência de que escutava diferente é da minha infância, quando estávamos na sala de casa, o telefone tocava perto de mim e eu não me mexia pra atender. Minha irmã ficava puta comigo, gritava para nossa mãe que eu não atendia o telefone por preguiça. Eu ficava chateada, pois não entendia como minha irmã sabia que ele estava tocando e eu não percebia. Era como a mágica da mãe dos meninos, mas eu, que considerava minha irmã meu maior ídolo (e assim ela é até hoje), achava que ela conseguia ouvir por ser mais inteligente. Eu realmente considerava a minha irmã a pessoa mais inteligente do mundo. Hoje já não estou mais muito certa disso (ahahaha).

Eu não entendia o que acontecia comigo. Lembro das aulas de inglês no Yázigi, onde estudei dos 11 aos 14 anos. Eu ia sempre muito bem nas provas escritas, mas era péssima em listening. E isso me fazia me sentir a mais burra do mundo. Me entristecia quando estava no meu quarto ouvindo música e cantando feliz, e de repente a porta era aberta violentamente pela minha mãe dizendo que estava gritando da cozinha por minha ajuda um tempão. É chato não ser boa numa coisa, mas não ser boa por conta de algo que vai além do meu querer é ainda mais frustrante.

Em outro momento, os irmãos surdos dizem (novamente, tradução livre minha):

Sendo surdo, posso fazer qualquer coisa. Digo, já fui instrutor de ski, guia de rafting, agora estou na pós-graduação… mas pode ser mais difícil, pois eu vivo num mundo diferente. Pode ser um tanto isolador. Pode ser um pouco frustrante. Porque você está tentando se comunicar, está tentando sentir-se respeitado e tratado com igualdade, mas às vezes você não recebe isso.

“Isolamento”, “frustração”, são sentimentos que constantemente me acompanharam e ainda hoje me atormentam de vez em quando. É cansativo também. Acaba se tornando automático, mas é mais difícil para mim acompanhar uma simples conversa, devido a diversos fatores (barulho, número de pessoas, etc). E isso cansa. Daí chega uma hora em que me perco e desisto de continuar acompanhando.

Se estou num grupo de mais de quatro pessoas [numa roda de conversa], estou perdido. Estou literalmente como um barco no meio de uma grande tempestade. Mas se uma pessoa se comunica, se conecta comigo, isso me ajuda a me sentir incluído e é maravilhoso.

E então as pessoas me vêem alheia à conversa, e acham que não estou prestando atenção por não estar gostando do papo ou por ser blasé. Sou tachada de antisocial. Certa vez, há alguns anos, fui à balada com um namorado e seus amigos, apesar de não curtir lugares barulhentos por não conseguir conversar com as pessoas. Eu ainda não os conhecia direito e queria me enturmar. Mas depois meu namorado veio me dizer que alguns de seus amigos perguntaram a ele se eu era autista por não interagir. Parei de ir a baladas.

Conforme fui tomando consciência da minha deficiência, fui me fechando, me tornando introvertida. A criança tagarela se transformou numa adolescente extremamente tímida, apesar de inteligente e criativa. Muitas vezes me perguntei e ainda hoje me pergunto como eu seria se tivesse a audição normal. Se eu seria diferente, se seria mais sociável, se teria mais oportunidades profissionais. Se seria uma pessoa melhor. Hoje posso dizer que encaro de forma mais leve, pois há alguns anos, seria impossível pra mim escrever este texto e publicá-lo. Mas ainda falta chão para eu chegar ao nível de consciência destes irmãos, que dizem “sou feliz por ser surdo”, aceitando a deficiência como uma graça que lhes foi concedida.

Mas o mais interessante que notei no video e o que gostaria de compartilhar aqui é a importância de levar qualquer sinal diferente a sério, principalmente em crianças. Eu não tive na minha infância nenhuma orientação. Minha mãe não me levou uma única vez a um médico otorrinolaringologista, mesmo sabendo que havia algo errado. Como eu sempre fui ótima aluna, tirando sempre notas altas e recebendo elogios dos professores pela minha “quietude”, ela jamais imaginou que esse problema auditivo poderia ter um impacto tão forte na minha vida e até mesmo na minha personalidade. Certamente teria sido mais fácil se eu tivesse obtido ajuda mais cedo. Minha primeira consulta com um especialista foi aos 24 anos, quando estava começando a trabalhar no atendimento ao cliente na Livraria Cultura e percebi que não escutar o toque do telefone se tornaria um grande problema. Naquele momento, na intenção de consertar os danos, tentei aparelho auditivo, mas não me adaptei e isso me fez sentir ainda pior. Graças à Deus, a Livraria me ajudou em tudo que precisei e lá trabalhei por quase 6 anos. Tive a sorte de trabalhar ainda na SuperPedido e agora no Senac, empresas que oferecem total apoio aos funcionários portadores de deficiência.

O video dos irmãos surdos me trouxe uma sensação de alívio, como se me sentisse finalmente compreendida. Por este motivo, precisei escrever este textão, para compartilhar este conforto com outras pessoas que possam estar precisando.

Você pode escutar sem som. Acredito que é mais sobre tentar ouvir com seus olhos… com sua mente, com seu coração… tentar se conectar. Não importa se você escuta pelos seus olhos ou pelos seus ouvidos. Isso não importa. O importante é ouvir.

 

BEFORE I DIE

Depois de almoçar um árabe no Shopping Vila Olímpia, fui andando em direção à estação de trem. Quando atravessava a rua para entrar, olhei à esquerda para ver se não vinha carro, e o que vi me paralisou no meio da via. Não podia ser verdade. Havia quatro bicicletas na estação de bike do Itaú. QUATRO !!! Ultimamente não tenho conseguido pedalar nas itabikes, todas as estações pelas quais passo estão sempre vazias, inoperantes ou com bikes depredadas ou quebradas. Mas hoje era meu dia de sorte, tinha quatro bikes, daria até para escolher. Tava um dia nublado, frio e meio garoento de bosta, eu estava de calça jeans, blusão e lenço no pescoço. Olhei o relógio, ainda era cedo. Com a sorte não se brinca: peguei a melhor bike e fui pedalar sentido Villa Lobos (e eu tinha acabado de voltar de lá).

Hoje era dia de ciclofaixa. Fui por ela até o Parque do Povo. Não costumo entrar, mas hoje entrei. Estava vazio. Domingo de tempo feio, parques vazios, shoppings cheios. Fazia tempo que não dava uma volta inteira lá dentro, e já que estava vazio, resolvi circular.

E então, quando passava pelo trecho mais rápido, ao final de uma descida, vi uma frase  numa parede. BEFORE I DIE. Entendi direito? Curiosa que sou, voltei pra ver o que era.

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Transformaram uma parede em quadro negro, pintaram no topo essa frase e algumas linhas onde as pessoas podiam escrever o que gostariam de fazer antes de morrer com giz. Fiquei um tempo olhando para todos aqueles desejos. Muitos deles eram coisas simples que eu também desejo e provavelmente, você também. Comecei a pensar aleatoriamente em coisas que gostaria de fazer antes de bater as botas, e não parava de vir ideia. Para tanto desejo meu, aquela parede parecia pequena.

Daí veio um lampejo, tipo uma epifania: não seria esse o tal sentido da vida?

Nós chegamos ao mundo e o relógio já começa a contar pra trás. A cada dia de vida nos aproximamos um dia da morte. Se tivermos saúde, temos aí uns 80, 90, 100 anos pra viver. Como vamos preencher esse tempo? Fazendo coisas. Coisas que gostamos e outras que não gostamos tanto assim, e às vezes até coisas que detestamos. Mas o fluxo natural das coisas deveria ser fazer aquilo que desejamos fazer. Aí é onde entra o tal sentido da vida: saber o que gosta, o que deseja fazer (antes de morrer) e ir atrás disso. Às vezes não vai dar, vai ter coisa impossível (quando não depende apenas da sua vontade), mas o grande lance é ter sempre algum sonho pra correr atrás.

Tempo (falta de) não é desculpa, a prova tá no parágrafo anterior. Dinheiro (falta de) às vezes é, porque há desejos que envolvem uma grana, mas daí é trabalhar pra conseguir essa grana. O que você quer fazer antes de morrer? Alcançar cargo X no trabalho? Amar? Ser amado (isso o dinheiro não compra. Quer dizer, às vezes até compra ehehe)? Ter um filho (aqui, por exemplo, demanda uma grana $$$$$)? Um cachorro chihuahua? Subir o Kilimanjaro? Uma selfie com a Xuxa? Dia de princesa com o Netinho? Trabalho voluntário na Índia? Que seja, podemos desejar fazer qualquer coisa antes de morrer. E enquanto existirem coisas na sua listinha, tá valendo cada diazinho de cão vivido.

Eu andei tristonha nos últimos meses, achando que minha vida não tinha sentido. Quando imaginei aquela parede cheia de coisas que eu quero fazer antes de morrer, percebi que a minha vida tem, sim senhor, muito sentido. Sempre terá, desde que eu tenha coisas para fazer antes de morrer, e vá atrás de concretizá-las.

 

 

 

me, myself and i

– Vamos sair.

– Que? Nem fudendo.

– Vamos! Vai ficar dormindo a tarde inteira que nem ontem?

– Você pegou pesado ontem. Me disse coisas horríveis.

– É, eu sei.

– Me fez chorar.

– Sim, eu fiz. Às vezes a gente tem que falar a real, mesmo que machuque. E você tem que ouvir e digerir, ver o que pode tirar de bom e o que pode descartar.

– E agora vem como se não tivesse acontecido nada e me chama pra sair?

– Aham. Bora. Olha, tem umas mensagens no seu Whatsapp, quer que eu leia?

– Não! Silenciei o Whats hoje, não quero falar com ninguém, quero ficar sozinha.

– Mas comigo você está falando! Ótimo. Vai, a feira já está feita, o velhinho já almocou, a louça está lavada e a roupa também. Não tem nada que te prenda aqui.

– Mas tem o TCC…

– Foda-se o TCC, duvido que desse jeito você vá produzir alguma coisa.

– Caraio. Espera eu tomar banho.

Pegamos o trem sem decidir aonde ir. Sugeri que pegássemos uma bike do Itaú em alguma estação e fôssemos pedalar. Eu queria ir ao minhocão ver os jardins verticais que vi no jornal pela manhã.

– Mas antes, eu quero tomar sorvete.

– Sorvete?!

– Aham. Frida & Mina. A gente desce em Pinheiros e vai de bike.

– Deixa ver se tem estação perto. Hummm… não tem nenhuma bike. Má ideia.

– Beleza, vamos de metrô.

– Jamais. Você sabe que odeio metrô. Vamos andando.

– Boa! Adoro quando vamos caminhar.

Quando saímos de Infernagos estava nublado, mas em Pinheiros o sol ainda brilhava forte. Foi uma caminhada gostosa até a esquina da Joaquim Antunes com a Artur de Azevedo.

– Qual você vai escolher?

– Morango balsâmico, o de sempre, ué.

– Affff, de novo? Por que você não experimenta o de gengibre com mel?

– Será? Que bizarro…

[Para o atendente] – Posso experimentar o de gengibre?  (…)  Hummm… quero esse mesmo!

– Eu disse que ia gostar.

– Parabéns.

– De nada.

Saímos tomando sorvete e paramos na esquina para procurar a estação de bike do Itaú mais próxima. A maioria estava sem bicicletas. A melhor opção parecia uma perto da praça Benedito Calixto. Andamos até lá, e a única bike disponível estava depredada, com o guidão quebrado. Vândalos filhas da puta.

– Caraio. Mais fácil ir andando até o minhocão do que achar uma bike pra emprestar.

– Vamos pra Doutor Arnaldo pegar um bus.

– Não temos escolha…

– E se a gente for à Caixa Cultural ver aquela exposição que você tava afins?

– A Valise Mexicana, do Capa? Não seria má ideia! Mas e os jardins verticais?

– Ficam pra outro dia. Tá começando a mudar o tempo.

Pegamos o Praça Ramos na Doutor Arnaldo e descemos no Shopping Light. Atravessamos o Viaduto do Anhangabaú e fomos em direção à Praça da Sé pela Rua Direita.

– Tá meio deserta a rua…

– Tá com medo? Desde quando ficou tão cagona? Tá claro ainda!

– Sei lá, depois do assalto…

– O que o ladrão fez no assalto?

– Me apontou uma arma na cara e mandou entregar o celular.

– E o que você fez?

– Entreguei o celular.

– Pronto. Se aparecer alguém, você entrega o celular.

– Aham. Obrigada, isso muito me acalma.

Pelo menos esse argumento sem cabimento me distraiu e logo estávamos  na entrada da Caixa Cultural. A exposição está realmente fantástica. Dois andares, muitas fotos e contatos, muito texto e uma riqueza de história pra ler, a Camila tinha razão quando disse que essa expo precisa ser vista com calma e em mais de uma visita. Não ficamos nem uma hora, pois já estava acabando o horário de visitação. Saímos em direção ao metrô Sé. Dessa vez eu me rendi e concordei em ir até a Vila Mariana pelo subterrâneo. Um morador de rua batia freneticamente uma panela, passando na frente de vários grupinhos, que o ignoravam sumariamente. Entramos no metrô descendo pela escada normal.

– Ó, obrigada por ter me tirado de casa. Você tinha razão.

– De nada. Eu te conheço, você sabe.

– Ninguém me conhece melhor que você. Amo você, apesar de tudo.

– Eu nos amo, apesar de você insistir em querer estragar tudo às vezes.

***

Da série “às vezes eu converso comigo mesma e me levo para passear”, 11 de setembro de 2016.

#banheirosespetaculares

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Sem nenhuma cerimônia e com muita desenvoltura, ela entrou naquele espaço luxuoso na rua Oscar Freire. Vestia roupas humildes, chinelos e um turbante na cabeça que dava um ar elegante. A brincadeira era tirar uma foto do espaço e postar numa rede social com a hashtag #banheirosespetaculares em troca de um brinde. “Moça, você pode por favor tirar uma foto minha?” – perguntou-me. “Claro que sim”, respondi, enquanto a hostess tentava convence-la de que ela podia levar o brinde sem tirar a foto. “Não, eu faço questão de tirar a foto. Moça, por favor. Ah, só deixa eu me arrumar”.  Colocou as sacolas com seus pertences num canto e começou a desenrolar o turbante, enrolando novamente em seguida, olhando concentrada seu reflexo no espelho. Não esperei que se arrumasse: cliquei. Cliquei outra vez. Outra vez. Por fim, baixou a jaqueta deixando os ombros à mostra, virou-se e  olhou para mim com semblante sério. “Pronto”. Cliquei. “Me manda essas fotos por e-mail, por favor? Pode anotar? cassia.haagensen@…”. Soletrou Haagensen perfeitamente. Me agradeceu, pegou seu brinde e suas sacolas e saiu. Não saiu da minha cabeça a imagem daquela mulher de aparência extremamente humilde, mas muito articulada e de sobrenome estrangeiro. Pois bem, aqui está a foto dela, devidamente hashtageada.