#banheirosespetaculares

Instasize_1031132654

Sem nenhuma cerimônia e com muita desenvoltura, ela entrou naquele espaço luxuoso na rua Oscar Freire. Vestia roupas humildes, chinelos e um turbante na cabeça que dava um ar elegante. A brincadeira era tirar uma foto do espaço e postar numa rede social com a hashtag #banheirosespetaculares em troca de um brinde. “Moça, você pode por favor tirar uma foto minha?” – perguntou-me. “Claro que sim”, respondi, enquanto a hostess tentava convence-la de que ela podia levar o brinde sem tirar a foto. “Não, eu faço questão de tirar a foto. Moça, por favor. Ah, só deixa eu me arrumar”.  Colocou as sacolas com seus pertences num canto e começou a desenrolar o turbante, enrolando novamente em seguida, olhando concentrada seu reflexo no espelho. Não esperei que se arrumasse: cliquei. Cliquei outra vez. Outra vez. Por fim, baixou a jaqueta deixando os ombros à mostra, virou-se e  olhou para mim com semblante sério. “Pronto”. Cliquei. “Me manda essas fotos por e-mail, por favor? Pode anotar? cassia.haagensen@…”. Soletrou Haagensen perfeitamente. Me agradeceu, pegou seu brinde e suas sacolas e saiu. Não saiu da minha cabeça a imagem daquela mulher de aparência extremamente humilde, mas muito articulada e de sobrenome estrangeiro. Pois bem, aqui está a foto dela, devidamente hashtageada.

“… você vai ter muita alegria na sua vida…”

2014-10-04 22.55.21

♫ Trilha sonora: Stubborn Love – The Lumineers ♪

“So keep your head up, keep your love”

Era por volta das oito e meia da noite, desci do trem na minha estação, voltando de um cansativo dia de trabalho. Tinha passado o dia todo fotografando. Sentindo o peso do equipamento nas costas e o mundo apertando meus pés contra o chão, caminhava o mais rápido que podia até o ponto.

“- Moça! Moça!”

Ouvi distraidamente o chamado, e quando pensei que poderia ser comigo e me virei, ela já estava ao meu lado, na faixa de pedestres.

“- Você ainda vai ter muita alegria na sua vida, viu, moça?”

“- Oi? Não entendi…”

“- Eu vejo que você vai ter muita felicidade na sua vida.” – falou mais baixo e se aproximando de mim como se me contasse um segredo.

Quem era aquela mulher e o que estava dizendo? Antes que pudesse esboçar reação, como que para escapar de qualquer questionamento, a mulher retomou a fala:

“- Como que eu faço para chegar em Interlagos?”

“- A estação de trem? Estamos ao lado dela.”

“- Não, o shopping.”

“- Ah, para o shopping a senhora precisa pegar um ônibus do outro lado da rua.”

“- Daquele lado, né? Obrigada, moça.”

Atravessou a rua e passou direto pelo ponto, continuando a andar. Meu ônibus, que em geral demora para passar, veio em seguida. Pela janela, procurei a mulher mais adiante na rua, em vão. Ela havia desaparecido tão repentinamente quanto surgiu.

O fato se torna ainda mais estranho quando se leva em conta que há aproximadamente duas semanas tive o que creio ter sido a mais profunda crise de depressão que vivi até hoje, contra a qual tenho lutado diariamente para me libertar.

Compreendi e chorei.

E dessa vez, não foi um sonho.

Into the Wild

mm

♫ Soundtrack ♪

Um tempo atrás, descobri em casa um antigo álbum de fotografias da minha mãe (falecida há dois anos). A foto acima, de 1965, retrata minha mãe (à esquerda, segurando um rádio) e amigos no topo do Agulhas Negras, 5º pico mais alto do Brasil (2.791m).

Lembro dela dizendo, orgulhosa: “eu escarei [sic] Agulhas Negras”.

Exatos 50 anos depois, sob a graça de um encadeamento perfeito de fatores (meu irmão André ir trabalhar em Guaratinguetá > o André conhecer o Mestre Gerson > o André subir o Pico dos Marins com Gerson > a subida do André ter encantado a querida Juliane > a Juliane ter ouvido emocionada a história da minha mãe ter “escarado” Agulhas Negras quando jovem > a Juliane ter proposto uma expedição ao Agulhas ao Gerson > o Gerson ter topado), eu pude vivenciar a mesma experiência de minha mãe.

E de repente, tudo fez sentido. Agora compreendo a grandeza do “escarar” Agulhas.

Não é fácil. Não se trata apenas de esforço físico, a subida é uma luta mental contra seus medos. Não é simplesmente medo de altura. É medo de não conseguir comungar com a natureza, de não saber utiliza-la a seu favor.

Porque a natureza… a montanha, parece que foi desenhada por Deus com detalhes e sulcos e ranhuras, pistas que foram deixadas apenas para te ajudar a chegar lá em cima. Para que possa chegar ao topo e vislumbrar todo o conjunto da grandiosa obra.

Tendo isso em mente, você só precisa confiar. Confiar no seu guia (o meu era “só um ninja com mais de 20 anos de experiência); confiar na sua bota (isso te faz caminhar em pé, e não rastejar); confiar em você (essa é a parte mais difícil).

Em dado momento, você entra em comunhão com a natureza, e nesse momento o medo se perde. A montanha é você e você é a montanha. Você então percebe que é tão forte quanto a montanha.

Não tenho palavras para agradecer todos os que fizeram isso acontecer: André (pela motivação e inspiração, sempre); Juliane (por ter dado forma a algo que era apenas um rascunho na minha cabeça); Mestre Gerson (pela paciência e atenção com as quais guiou e cuidou do grupo); Mary (que a cada momento de fraqueza meu, me dava forças dizendo “Lux, você consegue, pensa na sua mãe”); Sandro, Andreia e Andreia  (três pessoas super alto astral que conheci na expedição e tenho certeza de que voltarei a encontrar em outras aventuras).

* A música escolhida como trilha sonora desta postagem era uma das favoritas da minha mãe. Meus olhos se encheram de lágrimas e me arrepiei quando a Juliane de repente colocou ela para tocar no celular no momento em que chegamos ao final da nossa trilha. Eu tive a certeza: minha mãe nos acompanhou o caminho todo.

** Quem quiser conhecer o maravilhoso trabalho do Gerson, e arriscar uma aventura na natureza selvagem, segue: Gerson Santos Expedições

Dreams – 03/01/2015

Levantei no meio da noite e fui até o banheiro em frente ao meu quarto. Fechei a porta. Ao me virar, o chão estava alagado. Algum cano havia estourado. A água subia rapidamente e já estava na altura dos meus joelhos quando saí gritando “mãe! a casa tá alagando!”

A água não parava de subir, e a casa inteira estava inundada. Vi minha mãe no corredor enquanto nadava desesperadamente para encontrar uma saída. Ela estava serena. “Mãe, precisamos sair, a casa está alagada!”

Todas as janelas e portas estavam trancadas com cadeado. Eu não possuía nenhuma chave.

A água já passava dos meus ombros, cheguei à última porta: trancada a cadeado. “Mãe, porque você não consertou o vazamento?”

Senti a água descer pelas minhas narinas até os pulmões.

Acordei.

Djapa quenia djá eras

Sabem aquela Lux que treinou meses pra correr uma meia maratona em novembro, e que a terminou com glória, em 1h50min? Que fazia 10km em 50min e 5km em 24min? Então, ela não existe mais.

Depois da meia em 2/11, declarei férias de corrida. Continuei indo à cadimia, mas foram poucas as vezes que treinei esteira. Abri espaço pro spinning e musculação. Foram quase dois meses.

Dae hoje fui fazer um treino de corrida no asfalto: FIASCO! Corri apenas 8km num pace muito aquém do meu usual e quase tendo um colapso!

run

Pois é. Mais uma vez, começou a latejar na mente o mantra do sensei André Mendonça: “precisamos treinar sério, Neusa”. Em dois meses meu cardiorespiratório foi pra cucuia, o que comprometeu todo o conjunto. Senti também as pernas duras e pesadas.

O lado triste dessa coisa de ser esportista é que algumas míseras semanas de relaxo colocam a perder todo o trabalho de meses. O lado bom é saber exatamente o que fazer pra voltar ao que era (e ir além): treinar. Mas tem que treinar sério, como disse o Sensei.

E tem que ser um treino focado num objetivo. Não adianta querer correr bem e fazer bike pra manter o corpo ativo, não vai rolar. Quem quer correr bem tem que treinar a correr.

De qualquer forma, meu corpo estava mesmo precisando de férias. Ainda mais que o desafio do ano que vem é a maratona do Rio de Janeiro e, pelo que adiantou o Sensei, o treino não vai ser moleza não! Eu achando que seria um intensivo de 4 meses, será de 6 meses!

Aquela Lux que conseguiu alcançar o objetivo de 2014 não existe mais… mas não faz mal, a Lux em busca do desafio de 2015 vai entrar em fase de construção em breve.

Sobre o Natal de 2014

Este ano o Natal foi mais tranquilo aqui em casa. Ano passado foi nosso primeiro Natal sem a MM, e eu fiquei meio desesperada sem saber o que fazer pra ceia. Sim, éramos apenas eu e o Paps, mas claro que teria ceia. A MM sempre fazia um jantar mais caprichado no Natal. Eu estava under pressure, eu mesma me pressionando. Esse ano eu estava mais sussa. Acho que entendi que não dá pra tentar ser a MM porque ela era incrível. Basta eu ser o melhor de mim.

Esse ano também parece que pela primeira vez compreendi e dei valor ao clima natalino. Essa época é tão cheia de amor e esperança, sente-se no ar… todos desejando o melhor para o próximo, de coração.

Compreendi também que estar com a família neste período, em especial no Natal, é muito precioso. Durante nossa pequena ceia, meu pai falou “é uma pena termos uma mesa tão farta e bonita para servir apenas eu e você”. É verdade. A MM e a Sati fazem muita falta. Mas sou muito grata por ter passado a data com meu Paps.

Hoje cedo, ainda na cama, estava fazendo uma limpa nas notas salvas no meu celular e encontrei este link. Sem saber do que se tratava, cliquei. Era o videozinho que fiz num momento de saudade da MM. Quem sabe não foi a forma que ela encontrou pra estar aqui comigo hoje?

Dreams – 2014.dec.24

Finalmente havia chegado o tão esperado recesso de final de ano. Eu estava viajando com minha mãe, e tínhamos acabado de chegar no hotel. Não sei que lugar era aquele, mas era um hotel super luxuoso.

Fui desfazer as malas e, ao abrir o ziper da primeira, surge num salto nada mais, nada menos que Bono Vox. Não estou falando do vocalista do U2, mas do meu cachorro, misto de Rotweiller com vira lata, que parece um labrador mas tem o rabo cortado.

Fiquei em pânico, pois não era permitido cães naquele hotel. Tentei enfiar de volta Bono Vox dentro da mala, em vão. Ele pulava pra lá e pra cá, feliz. As camareiras e mensageiros ficaram estarrecidos. Começaram a surgir mais e mais funcionários do hotel, todos com olhar inquisidor, querendo capturar Bono Vox e coloca-lo para fora do hotel.

Eu continuava tentando colocar Bono Vox dentro da mala, como se ela fosse um armário de Nárnia e que resolveria todos os meus problemas se ele fizesse o favor de entrar lá. Claro que ele não entrou.

Fechei a porta do quarto – estranhamente era mais fácil conter um exército de funcionários do hotel ávidos por nos botar pra fora do que colocar Bono Vox de volta na mala.

Minha mãe então disse, com pesar nos olhos: “Yo, teremos que vender o Bono, sinto muito”. Como assim vender o Bono? Alguém ia querer comprar o Bono, por acaso? Bono Vox, cachorro louco, misto de Rotweiller com vira lata, que parece um labrador mas tem o rabo cortado?

Num ímpeto, gritei: “BONO!!! ENTRA NA MALA AGORA OU VAMOS VENDER VOCÊ!”

Bono Vox parou de pular e olhou pra mim.

Acordei.